terça-feira, 15 de maio de 2012

Quando os humanos desceram à Terra, encontraram devastação. Tinham ido à procura da vida e esqueceram-se desta. Inocentaram-se do infortúnio com destemida ingenuidade, como quem espera que janeiro não seja chuvoso. Até à réstia das últimas esperanças, resistiram às críticas dos outrora presunçosos detentores do mundo, os que injuriosamente foram acusados de impedir o progresso.
Por lá, um Pirata recebeu-os, pala no olho direito – intacto -, mero personagem estereotipado. E foi com o outro que viu surgir uma mão nefasta, a cobrir-lhe o rosto, a vedar-lhe a palavra suplicante, até não mais restar Pirata malvado.
-Sê-o hoje e conquista, vociferou o capitão dos homens, eleito por esse escrutínio ideológico a que chamamos democracia. E fez-se uma luz agonizante: tínhamo-nos condenado.
E já sem pirata viram-se livres para partir na aviltante busca. Desprezaram o Palhaço, que subitamente não tinha graça, até chegarem a mais um dispensável, desta feita o Polícia. Jocosamente roubaram-lhe as balas, devolvendo-lhas no peito. E prostrado no chão ficou.
-Olho por olho, dente por dente, gritaram ilesos, fugitivos à sorte do taxativo mandamento. E partiram em busca do próximo.
Grisalho, nariz repulsivo, olhos postos no céu. Sai disparado um de bigode que vem exalando pelas narinas um ódio histórico, à medida que o homem taciturno e hesitante recua, a passos longos, qual Nostradamus a encontrar La Palisse. Um chicote nas costas largas mas não tão largas que suportassem tamanha culpa, Perdoe-lhe o Senhor que eu não arranjo forças, já sou exaustão e ainda agora começou a minha penitência, E várias e devastantes chibatadas depois puseram-no numa cela, de onde não se ouviu pio.
Chamaram então um auto-denominado rei, sem reino nem castelo físicos, cabelos e barbas longos. Julgaram-no em praça pública com um fascínio aterrador, até à última das provocantes perguntas:
- ”Porque é que não te salves se Ele não se mostra?”
E os homens questionavam-o à condição, pois se este o fizesse deixavam-no partir.

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