segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O que aprendemos com... Ló, parte 4

Tendo concluído um conjunto de reflexões nada mundanas sobre questões filosóficas e religiosas muito pertinentes, nomeadamente as perguntas de Platão (ou de Sócrates, que agora estou confuso) - com direito a incursão pelas primeiras vinte e oito páginas de O Mundo de Sofia - e a reformulação de um dito popular (devem agora dizer aos vossos amigos, só numa de quebrar o gelo, que não se pode agradar a gregos e troikanos), estou finalmente apto para concluir um outro projecto, neste caso o O que aprendemos com..., onde desta feita vamos tentar perceber quem foi Ló e porque é que surge em contexto, relembrando que estou a tentar mostrar porque é que considero que deus usou da fé cega dos seus servos para se aproveitar deles. Se não cumprir o meu propósito pelo menos já devo ser herege, alguns panfletos com o meu nome hão de estar espalhados pelas pentecostais deste Algarve e a minha alma, até ver, não vai ser salva, indo por isso juntar-se a um lote restrito de homens que ousaram questionar deus e agora estão mortos e ao que parece não vão ressuscitar após o dia do julgamento final.


Ló representará, por ventura, a figura de ovelha negra no meio de todos os nomes mencionados nesta série. Descende da linha de Sem, filho que Noé teve aos quinhentos anos (epá!), foi sobrinho de Abraão - que, como vimos, foi o patriarca da fé, homem em quem deus confiava - e, segundo os estudiosos do evangelho, aparece para em conjunto com a sua mulher nos mostrar que o julgamento dele é repentino e não nos podemos apegar às coisas materiais. Até aqui tudo bem, eu consigo perceber que os frutos do espírito sejam de difícil conservação - e no fogo de sodoma são capazes de ter derretido, se é que alguns havia, sei lá, a inocência, a sinceridade, a disponibilidade, a partilha desinteressada - mas não consigo deixar de me questionar porque é que este deus que tão bem quer aos seus servos ou usa para exemplificar o que é que de tão extremo pode acontecer a quem não o temer. Ou, como neste caso em que parece que este homem era materialista, falha o alvo. Que a mulher de Ló tenha desrespeitado uma ordem dada pelo criador e mereça ser punida até é compreensível, agora transformá-la em cloreto de sódio quando naquela altura as verduras estavam sempre bem de sal (porque a moderação é condição essencial de qualquer cristão que se preze) parece-me demasiado. É claro que os julgamentos de deus são inquestionáveis e embora tanto quanto sei a Bíblia não o relate, é bem possível que aquela estátua e o seu conteúdo tenham sido usados para fins pedagógicos além do "isto não deves fazer ou terás esta consequência". Mas verdade seja dita, pelo menos esse fim teve, nós falamos da mulher de Ló por aí e é vê-las a benzerem-se.

A história de Ló constituirá também, ainda que inadvertidamente, o primeiro exemplo de incesto da tão anafada disso História da humanidade, pois segundo relata o bom livro Ló terá copulado (ou sido violado, que isto se fosse hoje visto haver bebida alcoólica à mistura dava um bom caso de tribunal) com as suas filhas para manter a descendência. Um homem já por si não é de ferro e com vinho à mistura mais tenro se torna, culpas imputadas às filhas, que por sua vez se acharão no direito de imputar culpas a outro ser, a satanás, claro está, a origem de todo o mal.

O próximo post será um resumo desta série e surgirá algures no próximo mês, esperançosamente já com O Mundo de Sofia na página sessenta (ou mais).


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